Caderno

 Mas Rio tá tão triste
 Nunca vi essa tristeza
 Parece como uma parada 
 da vida
 Uma impossibilidade
 de ver
 E Rio foi tão triste
 mesmo com o seu céu
 transparente
  
 Somos invisíveis
  
 (Caderno nº15 / 03-07-2022) 
 
 
 

 Tempos acirrados
 como a gente diz 
 por aqui
 E o suco de caju
 não pode dar conta
 O mundo fechado
 O dia a dia difícil
 Na lanchonete 
 na esquina das ruas
 Carlos de Carvalho
 e Carlos Sampaio
 Lapa
 Cada um se vira
 até o dia seguinte
 Na calçada do lado de lá
 Um rapaz com um penso
 na têmpora esquerda
 vende frutas na rua
 - Vai ser melhorando
 - Se Deus quiser
 diz um outro
  
 (Caderno nº15 / 30-06-2022) 
 E agora a tempestade
 ameaça
 O trovão reduz ao silêncio
 a natureza
 Até a luz
 que se torna tímida
 cinzenta
 O dia está nos oferecendo
 a chuva
 Como um abraço
 Vamos sair
 vamos sentir
 O gosto da água
 Já estamos
 no Rio de Janeiro
  
 (Caderno nº15 / 19-06-2022) 
 
 
 
 
Il faut faire surgir des images, les prendre à la vastitude du réel pour trouer (ou troubler) ce qui est. Le poème, c’est cela, l’image apparue, comme pensée d’un sens en cours de destruction. La beauté n’est plus une norme. Elle est, ce qui altère et fissure l’ordre ordonné du langage, façonné par l’image. Le poète – Moi, je, poête!, disparaît. Il reste la poussière de la pierre, la nervure de la feuille, ou l’or de la lumière. L’image te regarde, elle touche dans le jeu qui la sépare d’une sœur, ce qui manque. Ton langage qui n’est pas celui des autres, mais tu n’existes pas sans eux, le poème déchiffre l'aporie en lui donnant de l’air. Il vole. Le poète est Azor.
  
 Um ramo de cerejeira
 quase entra 
 na casa
 A luz do sol
 na madrugada
 faz fremir suas folhas
 O mundo é mudo
 Nesse silêncio 
 só percebo no seu sopro
 Um desejo de ser
 como um beijo pode caber
 o gosto do mar
 Na casa
 o ramo de cerejeira
 traz suas frutas
 em cima da mesa
 A mesa dos poemas

 (Caderno nº15 / 29-05-2022) 
 Pode-se ouvir os cachorros latindo
 semelhantes os de Santa Teresa
 no Rio de Janeiro
 Está estranho ver como um tempo 
 penetra um outro
 As imagens estão viajando
 esperando um som ou uma pedra
 pra tornar-se
 numa lembrança
 E agora vou partir
 até aquele Brasil que curto
 Na verdade sem vontade
 fugir ou buscar
 uma sensação outra da vida
 Mesmo se na minha casa
 me sinto perto 
 das palavras do Manuel do Barros
  
 (Caderno nº15 / 15-05-2022) 
 

 Mal o silêncio
 sempre tem um ave
 ou o movimento dum ramo
 Tudo isso que te faz sentir
 que a vida é frágil
 breve
 Mas não adianta desesperar
 só viver aquela
 Momentos
 Amores
 Até mesmo a solidão
 quando o presente
 tá desequilibrado pela uma lembrança
 Nada mais
  
 Você lembra
  
 (Caderno nº15 / 08-05-2022) 
 Depois uma chuvinha
 o sol estende os braços
 Quero partir
 longe
 Fora das palavras furtadas
 Somente sentir a sua luz
 Ficar num lugar quieto
 Até a solidão
 Sabe
 não espero mais nada
 No entanto
 o canto dum pássaro
 pode me levar
 e no tempo de escrever
 já estou outro
 Venha
  
 (Caderno nº15 / 24-04-2022) 
No alvorecer da Páscoa
o sol
apareceu num silêncio
Somente a sua luz
nas ervas altas
Sem palavras
Fiquei um momento
privilegiado
deixando os segundos 
me atravessar
O mundo assim parece tão simples
Fácil 
Queria te escrever
pra fazer daquele dia o seu niver

Mesmo se não fosse
o dia certo
Podermos o marcar 

Em nosso tempo

Vamos fazer uma festa
Vamos ser feliz todo esse dia

(Caderno nº15 / 17-04-2022)
 Comme un reste d’étreinte
 à l’aube
 et que les arbres
 les pierres
 et même les chiens
 te tutoient
 La peau touche l’air
 quand s’enlève
 l’habit
 Alors juste ressentir le froid
 de la nudité
 L’eau très calme
 aussi de la douceur
  
 SE BAIGNER DANS LA MER
  
  
 (Cahier n°15 / 12-04-2022) 
Tenho tempo
essa manha
Quando os vizinhos
estão dormindo
Sinto o sol
como se fosse o primeiro do mundo
O tempo
é a sua duração
Fora dos sonhos
Tenho tempo
E você 
Sabe que faz falta 
a sua presença
Mas deixo na luz
tantas lembranças
desaparecendo
No movimento dum ramo
No verde
duma folha nova
Oferecida pelo seu poema

Tenho tempo

(Caderno nº15 / 10-04-2022)
 Se trata dum domingo
 igual ao outro
 for daquela luz
 do sol
 Que me conta sua história
 uma história sem palavra
 Somente a duração 
 do tempo
 que se abre
 Antigamente teria pôr 
 o meu coração 
 sobre uma pedra
 Aquela do Drummond
 como uma armadilha
 para te atrair
 Mas hoje ninguém mais
 se liga com a poesia
 Então vou deixar
 esta luz
 me atravessar
 e levar as minhas esperanças 
 longe
 Remoto de nós
  
 (Caderno nº15 / 27-03-2022) 
 Há a primavera
 que vem apesar de tudo
 A luz daquele sol
 tímido
 tá como um beijo
 Lembre
 um momento na sua vida
 raro
 abandonado num desejo
 sem preocupações
 Uma alegria de ser
 alguns minutos
 Como a gente poderia imaginar 
 a vida
 simplesmente
  
 Venha
  
 (Caderno nº15 / 20-03-022) 
 A idioma
 do poema
 se afasta de ti
 cada vez que fecha
 Teus olhos
 Tão difícil que seja
 seus versos
 Sempre devem ser
 atravessados
 pela luz
 Mesma suja
 mesma triste
 A luz é o silêncio 
 do poema
  
 Não tem idioma
 se não tem silêncio
  
 Hoje
 estou precisando dum poema
 e dum silêncio
  
 Que teria oz força
  
 Dum grito
  
 (Caderno nº15 / 06-03-2022) 
 A consciência do tempo
 quando você pode
 sentir
 O movimento das coisas
 O sol na mesa
 suas sombras
 O calor
 até os ossos
 Estamos precisando um equilibro
 entre uma sensação
 e um pensamento
 Nunca soube
 como viver
 Não sou triste
 mas alegria tá tão volátil
 Mal a sinto que foge
 Cadê você
 Cadê você
 O dia está como um abraço
 e agora vêm
 Tantas lembranças
 Apesar do teu medo
  
 (Caderno nº15 / 27-02-2022) 
 Perco tudo
 Fora do movimento
 das sombras
 deixadas pelo sol
 na mesa dos poemas
 Pouco a pouco 
 me torno o vento
 Mateira do tempo
 Erva grande
 deitando
 Me traino 
 pra ficar
 Uma aparição da luz
 Na verdade
 só apercebo-me
 que estou
 te esperando
  
 (Caderno nº15 / 20-02-2022) 
 Se tiver tempo
 na solidão dos dias
 Não faça nada
 Deixe
 o vento
 atravessa-te
  
 Você sente
  
 (Caderno nº15 / 13-02-2022) 
 Por aqui
 está frio
 Frio de domingo
 Quando sente
 o afastamento dos outros
 sem sequer saber
 o que você quereria
 Fora um pouco 
 do sol
 Da sua luz
 e do calor dum beijo
 Escondido 
 numa lembrança pobre
 De repente um retrato
 rasgando o presente
 pra queimar
 essa realidade
  
 (Caderno nº15 / 06-02-2022) 
 
 
 O dia seguinte
 vi a luz da madrugada
 abrir a janela
 Abrir
 Fiquei assim
 olhando fora
 sem fazer nada outro
 Já disse que gosto a luz
 Ela é o meu remédio
 também as minhas viagens
 Penso no seu corpo
 no sol nascente
 Vamos descansar na praia
 do Canto Verde
 Ceará
 Venha comigo
 estou te esperando
 Atraz naquela janela
 atravessada pela luz
 desse dia
  
 (Caderno nº15 / 30-01-2022) 
  
 Vou estender
 os meus braços
 até os seus sonhos
 Vamos fender
 a realidade
 Abrir os caminhos
 dum desejo seu
 Pois preciso dum tempo
 lento
 Pra acariciar 
 a pele do mundo
 O movimento
 das nuvens parecendo 
 um pensamento
 desconhecido
 Ou como diria o Pessoa
 Acho que estiver possível
 Sentir
 com seu mente
  
 (Caderno nº15 / 23-01-2022) 
 Me afastei
 tirando a cortina
 pra escrever
 O sol está forte
 demais
 Me afastei
 e no meu poema
 nunca me senti
 tão perto
 de você
  
 (Caderno nº15 / 09-01-2022) 
 O dia trouxe 
 uma calma estranha
 Cadê o sol
 Desde a minha infância
 fiquei combinado com ele
 Um acordo secreto
 É por isso que viajo
 Ver o sol
 Assim fui no Brasil
 Assim fui no Congo
 Sabe porque
 Descobri que sobre a linha do equador
 ele estava mais grande
 Simplesmente porque você está mais perto
  
 Já preparei as malas
  
 (Caderno nº14 / 14-11-2021) 
 Vamos na Bahia
 como uma ultima vez
 Dormir na praia 
 Acordar-se com o sol
 da madrugada
 Escrever um poema
 na areia
 sabendo que o mar
 irá o fazer
 desaparecer
 Vamos na Bahia
 encontrar gente
 de poucas palavras
 certas
 Porque sempre
 devemos esperar algo
 nessa vida
 As vezes também é bom
 esquecer
 Ser o que vai acontecer
 Vamos na Bahia
 no lugar das origens
 porque foi lá
 que um Deus bêbado
 criou
 os abraços
 Vamos na Bahia
  
 (Caderno nº14 / 07-11-2021) 
 Dum céu profundo
 como o mar
 A cor roxa
 das nuvens
 mistura-se
 com uma impaciência
 As aves
 Me sinto desta matéria
 Terra arada
 debaixo da chuva
 Quando o seu sentimento
 surgiu
 Onde começa
 a nossa relação com o mundo
 Onde acaba
 Movimentos 
 intensos
 Até um poema
 temporário
  
 (Caderno nº14 / 24-10-2021) 
 Em pouco tempo
 o sol
 desapareceu
 Parece uma noite
 mas não
 Só o meu desejo de luz
 A minha esperança
 Assim o que não foi
 tornou-se 
 escuridão
 E agora
 estou esperando
 para uma estrela
 Quero ver uma estrela
 no dia sombra
 como a sua presença 
 num tempo
 que não mais imaginava
  
 Escrevo 
 a luz
 como um beijo
 é matéria viva
 Prolongamento do seu olho
 sua mente
  
 Somos
 pedacinhos deslumbrantes
 tanto como
 pedra da lua
  
 Aquela penumbra
 necessária
 para ver
 A chama
 duma vela
  
 Perdida nesse mundo
  
  
 (Caderno nº14 / 17-10-2021) 
 Senti uma vibração
 dentro de mim
 Um pássaro
 atirou-se contra a janela
 Não sei mais
 quem eu sou
 Uma folha branca
 ficando 
 esperar para seu poema
 Um olhar
 adivinhando as formas
 das nuvens
 Um tempo vazio
 uma cansada
 Já ouviu falar
 da leveza
 Aquela dum sol
 frágil
 acariciando sua pele
 O desejo
 A beleza do dia
 que já você sabe 
 indo embora
  
 Para onde
 para onde
  
 Vai
  
 As minhas malas
 já estão prontas
  
 (Caderno nº14 / 10-10-2021) 
 Numa madrugada
 frágil
 O sol
 está tomando um banho
 Nas águas
 da noite
 Daquelas que mudam 
 os sonhos
 Moro aqui
 Vem
 Te mostrarei
 o desejo lento
 duma esperança
 ou mais simplesmente
 Os abraços
 dum pássaro
 atravessando o céu
  
 (Caderno nº14 / 03-10-2021) 
 Ele se tornou
 uma nuvem
 Assim quando a chuva
 derrubasse
 o céu
 Pássaros
 azuis
 foram confundir-se
 com o mundo
 Não desaparecer
 Confundir
 Água 
 e terra
 Bichinho na paisagem 
 Fôlego dum beijo
 que na doçura e tristeza 
 de domingo de manhã
 vierem
 consolar-te
  
 (Caderno nº14 / 26-09-2021) 
 Deveria falar
 das coisas simples
 mesmo
 Vi o seu rosto
 num sonho
 Depois acabar um livro
 fazer compras
 A solidão dos dias
 agora
 não me pesa
 Nada me pesa
 Eu sou uma nuvem 
 que teria um pouco de terra
 na sua bolsa
 Posso ir embora
 ninguém vai me deter
 Tenho o seu retrato
 comigo
 Assim sinto-me leve
 Tão leve
  
 (Caderno nº14 / 19-09-2021) 
 A bruma
 entra pela porta
 aberta
 Ela me dá
 um abraço
 Numa outra vida
 fui uma nuvem
 com certeza
 Aquela leveza
 que guardamos
 nos nossos bolsos
 como essa parte
 de alegria
 Intocável
 Apesar dos acontecimentos
 do mundo
 Pois uma nuvem não tem fim
 fora 
 das lagrimas
 que bebem as plantas
  
 Vamos sair
 vamos viver
 vamos atravessar
  
 (Caderno nº14 / 05-09-2021) 
 
 Sempre olho
 a luz da madrugada
 até
 acordar-me
 unicamente por isso
 Porquê
 Talvez moro nesse lugar
 num tempo indefinido
 Me sentindo metade duma noite
 metade dum dia
 Durante a noite
 preciso do dia
 e reciprocamente
 Assim vou deixar os meus sonhos
 me encher de luz
 e quando o dia
 tiver madrugado
 completamente
 Vou caminhar um pouco
 Trabalhar
 Mas ainda com
 um pedacinho da noite
 dentro de mim
 Talvez penso
 que está impossível 
 viver
 sem esse movimento
 Talvez
 somos este movimento
 Com essa bruma
 de hoje
 que faz uma ligação
 entre a noite
 e o dia que vem
  
 (Caderno nº14 / 29-08-2021) 
 Um pouco daquele
 tempo
 basta esta luz
 e o quase silêncio
 O poema surge
 tanto como uma lembrança
 esquecido
 que uma esperança
 Um desejo
 - Aprendi que nunca morrem
 atravessando 
 seu corpo
 até a sua mente
 Um céu infinito
 azul
 e branco
 E desse momento 
 tão perfeito
 uma brisa leve
 um retrato desconhecido
 aquele ocre da luz
 Um pouco mais do que a poeira
 a matéria da clareza
 O que foi invisível
 até o momento
 de repente se vê
 O mundo mesmo
 simplesmente ampliado
 duma fotinha em mais
 que desaparecerá
 no instante seguinte
 Até uma outra
 e assim por diante
 Mas esse
 ocre de la lumière
 também está uma possibilidade
 Somos capazes 
 à semelhança dum mágico
 fazer surgir
 no mapa do céu
 Estrelas
 Só 
 pela pobreza dum amor
 ou pelo menos
 dum poema
 Que já sabemos
 desaparecendo
 Mas que poderemos nomear
 mas tarde
 como o que é
 o que se chama
 Beleza
  
 (Caderno nº14 / 22-08-2021) 
 Queria uma fala
 outra
 (sem palavra)
 Um tempinho
 nas suas costas
 só pra ouvir
 uma respiração
 Poderíamos
 nós encontrar
 em silêncio
 Deixar os sonhos
 se entrelaçar
 pra dar espaço
 dentro nesse mundo
 tão constrangido 
 Queria andar com você
 sem saber quem você é
 sem conhecer o lugar
 o caminho
 Abraços
 Adeus
 Ficar com uma lembrança
 daquele momento
 Um retrato
 com suas bordas denteadas
 - Onde foi
 Um sentimento da vida
 que não se controla
 Como já disse
 um cheiro de terra
 depois uma chuvinha
 Mas talvez
 nós nos reconheceremos
  
 (Caderno nº14 / 01-08-2021) 
 O cansaço dos dias
 sem palavra
 Vamos tomar um café
 olhando o movimento
 dos galhos
 Sem nenhuma esperança
 nenhuma tristeza também não
 Somente a apreciação 
 do tempo
 Um leve sabor de chuva
 ponto de frio
 no calor de verão
 Algumas lembranças
 atravessando a mente
 como as nuvens 
 que deixam o ramo
 Vamos viajar
 Vamos desejar
 de qualquer forma 
 que seja
 Vamos sentir
 aquele movimento da vida
 que te busca
 Até mesmo
 sua fraqueza
  
 (Caderno nº14 / 25-07-2021)  

 
 Com o sol que voltou
 (cadê você)
 Decidi me deixar
 atravessar pelo calor
 Momento do poema
 a pedra ardente
 na sua mão
 Tem um lugar
 Tem um lugar
 Alegria foi lá
 Depois te contarei
 o que aconteceu
 quando fosse 
 embora
 Mas hoje o céu
 parece tão
 lindo
 Que queria me tornar
 um pedacinho
 desse dia
 Que veio
 como um desejo
 de ti
  
 (Caderno nº14 / 18-07-2021) 
 
 
 
 Derrubei o café
 sobre a mesa
 duma manhã adormecido
 Agora
 olho no céu
 nuvens se acumular
 Teve muita chuva
 dias passados
 Até um frio anormal
 nessa época 
 Aqui ninguém 
 mais sabe o que esperar
 O sonho mesmo
 torna-se frágil
 Vamos esperar
 Esperar o que
 Eu não sei
  
 (Caderno nº14 / 11-07-2021) 
 
 
 
 Duma solidão
 sem espaço
 Deixei
 de ficar esperando
 A cerca está invadida
 de ervas
 como se ninguém
 viesse mais por aqui
 A tranquilidade
 torna-se silêncio
 quando aparecer 
 pensamentos livres
 Sonhos
 que de qualquer maneira
 atravessam o tempo
 sem desfazer essa realidade
 Só
 me atravessando
  
 (Caderno nº14 / 27-06-2021) 
 
 
 
 Fora do mundo
 tento de tecer
 uma luz
 Aquela de manhã
 mesmo um pouco
 amarelando
 Com uma palavra 
 pobre
 Trata-se de existir
 nomeando
 o que no fluxo
 se torna invisível
 Apalpo com a pele
 dos olhos
 esse momento
 pra ver
 simplesmente pra ver
 O sol
 apresentando 
 o dia
  
 (Caderno nº14 / 20-06-2021) 
 
 
 
 Abri a porta
 pouco depois a madrugada
 O calor de junho
 entrou 
 Quero essa luz
 aquele céu limpo              
 Azul
 E duma malícia
 se tornando 
 magia
 Vir perto de ti
 nas asas
 dum andorinhão
  
 (Caderno nº14 / 13-06-2021) 
 
 
 
 No silêncio
 o quintal acorda-se
 O que faço
 aqui
 Na solidão da madrugada
 quando o resto do mundo
 não mais existe
 Talvez estou buscando
 uma palavra
 ou melhor
 um retrato
 Na qual
 tem
 um pedacinho do sol
 Gosto da luz
 Poderia viver só a olhando
 A luz
 e o movimento
 dalgumas lembranças
  
 (Caderno nº14 / 06-06-2021) 
 
 
 

 Descobri
 o tempo
 dum pássaro
 Vou viver na luz
 e beber o orvalho do dia
 Sou uma bruta
 um rufio
 Preciso dum espaço
 idóneo
 Já deixei as relações
 com esse mundo 
 virtual
 Prefiro a pedra
 Madeira
 Nuvem
 Olhar uma ave
 pensando
 no meu passado
  
 (Caderno nº14 / 30-05-2021) 
 Estendendo a mão
senti o sol
Fora do meu pensamento
descobri o mundo
Um calor doce
como aquele
dum café da manhã
na esquina da rua
Silveira Martins
Pão na chapa
Café com leite
Agora vou escrever um poema
Antes de ir trabalhar
na biblioteca
do UFRJ
no largo São Francisco
É isso
reconheço o sol
ele me chamou
Eu vou
 
(Caderno nº13 / 16-05-2021)

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